Em Belém, apesar ser uma grande metrópole, as livrarias se tornaram cada vez mais escassas, engolidas pelas novas tendências de mercado e preços altos.
No entanto, há um mercado alternativo que se mantém forte e com um público fiel: os sebos. Eles não são muitos, cerca de sete (Cultura Usada, O Baú, Sebo Cultural, Alfarrábio, Pólo Cultural, A Banca do Zé e O Relicário) e ainda mantém uma grande clientela, que busca trocar seus livros, comprar a preço mais baixo, descobrir novas leituras, atualizar-se com as leituras do momento ou renovar o seu acervo. E para quem pensa que o sebo é um lugar que tem apenas livros velhos ou deteriorados, a surpresa pode ser bem maior, pois é possível encontrar livros em ótimo estado, “seminovos”, com preços que chegam a ser metade, se comparado ao preço de tabela, superando até as edições mais baratas, conhecidas como “livros de bolso”.
Anderson Sales é um dos administradores do sebo “O Relicário” e já trabalha há 15 anos no ramo, desde a antiga loja “O Arqueólogo”, por isso, fala com propriedade sobre o mercado de sebos na cidade. “As vendas variam conforme a época. Esse mês, por exemplo, a grande procura são os livros didáticos, de todos os tipos e séries”, comenta Anderson, que diz não ter sentido ainda os efeitos da reforma ortográfica “Por enquanto, esse efeito não chegou aqui, estamos vendendo normalmente e a saída tem sido grande”, comenta. As obras literárias clássicas, livros sobre os grandes pensadores e best-sellers do momento também são bastante procurados na loja.
“Temos sempre uma grande procura por nomes como Dostoiévski, Kafka, Nietzsche, livros sobre a história de Belém, bem difíceis de conseguir, além da literatura regional de Haroldo Maranhão e Dalcídio Jurandir, um dos mais procurados. O livros deles não ficam aqui por muito tempo”, diz Anderson. Outro destaque dos sebos são as influências das estreias do cinema. Um exemplo recente é o filme “Crepúsculo”, a mais nova febre “adolescente - Best Seller”, depois de Harry Potter. O livro tem sido vendido a R$ 25 cada edição e a procura é muito grande “Essa série do ‘Crepúsculo’ tem saído bastante por aqui. A mesma coisa acontece com as adaptações de quadrinhos. Tivemos uma grande procura por edições especiais do Batman na época do filme como ‘Batman Ano 1’, ‘Piada Mortal’ e ‘Batman, o Cavaleiro das Trevas’”. As revistas em questão são consideradas a base do novo filme do Homem-Morcego, o que justifica a grande procura dos fãs.
Victor Souza, 24, é engenheiro eletricista e há 10 anos mantém o costume de comprar em sebos “Eu comecei a frequentar os sebos depois da dica de um primo. Comecei comprando quadrinhos, alguns bem raros, depois entrei na universidade e precisei mais ainda das compras no sebo”, comenta Vitor que se refere ao alto valor do livros acadêmicos. “Como os livros do curso eram muito caros, comecei a procurá-los nos sebos. Cheguei a comprar um livro de cálculo, em volume único, por R$ 30, sendo que cada volume separado custava mais de R$ 60 nas livrarias”, comenta o engenheiro.
“O sebo é um espaço muito aberto para negociação e atualmente, compro fazendo trocas. Escolho algo do meu acervo e negocio por outros volumes. Além disso, tem o Estante Virtual, que também é uma boa opção para quem quer economizar” diz Vitor. O site Estante Virtual (www.estantevirtual.com.br) é uma das grandes sensações dos clientes de sebos, principalmente entre estudantes universitários, já que o site possui uma rede de diversos estabelecimentos de todo o país, numa espécie de grande feira virtual.
“O Estante é ótimo e já fiz umas comprar por lá. Acredito que até julho a nossa loja já fará parte desse sistema, além de começar com as vendas online, a partir de julho”, explica Anderson, que já se preocupa em atualizar o esquema de vendas da loja. O jornalista Lúcio Flávio Pinto também é um assíduo frequentador de sebos e confessa que seu maior prazer está na descoberta de livros e leituras. “Eu gosto de entrar no sebo para pesquisar e ver o que tem, sem um objetivo exato. Acredito que o pessoal que entra num sebo procurando por um livro específico é um cliente ocasional. Eu frequento sebos desde os meus 12 anos. Na época, eu vivia no Sebo do Dudu, que ficava na Campos Sales, e comprava muito os almanaques do Porto e o Bertrand, que eram bem completos e tinham informações do mundo todo. Depois, eu me acostumei a pesquisar não só os assuntos que mais gosto, mas também colecionar alguns livros mais raros”, comenta o jornalista.
“Uma vez, andando pelos sebos do Rio de Janeiro encontrei uma edição antiga do Dom Casmurro, que não tinha data. Custou apenas R$ 10, levei e comecei a estranhar o fato da edição não ter data.Umpouco depois, eu descobri que essa era, na verdade, a primeira edição da obra”, orgulha-se Lúcio.
Às vezes, não é só a leitura que atrai o jornalista. “Uma vez eu comprei romance gótico alemão, com uma capa belíssima, acabamento em couro, uma edição muito boa. Eu não leio alemão, mas comprei pelo valor que o livro tem enquanto objeto”, comenta Lúcio, que já comprou vários livros por seu valor estético, acabamento ou valor histórico, além de algumas “duplicatas” para presentear seus amigos. “Os sebos são uma espécie de respiradouros culturais das cidades. Se um local tem bons leitores, isso será refletido nos sebos, pois eles são responsáveis pela circulação desse acervo cultural. Se hoje temos uma média de sete sebos, eu até acho um número bom, se comparado a antigamente que só tínhamos um na cidade. Isso é um sinal de que ainda temos um bom público leitor”, finaliza.
(Diário do Pará)
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