O fogo da criação


crônica da cidade


Quando Oscar Niemeyer completou 50 anos, em 1957, portanto em plena convulsão da terra vermelha no Planalto Central, Lucio Costa escreveu um texto tão conciso quanto crucial sobre o processo de criação do parceiro na construção de Brasília. 

Lucio Costa não apenas percebeu, de pronto, o nascimento do gênio Oscar Niemeyer, como teve a generosidade de realçar, sempre que pôde e enquanto foi preciso, as excepcionais qualidades do ex-estagiário. O inventor de Brasília contava que a "verdadeira estatura artística" de Niemeyer se revelou nas quatro semanas em que ele trabalhou sob a orientação direta de Le Corbusier. "Nem eu nem outros arquitetos que conviviam com ele àquela época (em meados dos anos 1930) poderíamos imaginar o que estava por acontecer", escreveu Lucio em suas memórias. E o que estava por acontecer era a explosão de um raro talento. 

É bastante provável que o texto abaixo já tenha sido publicado nesta crônica, mas, do mesmo modo que reencontrá-lo é sempre uma surpresa, imagino que o leitor também se surpreenderá ou se surpreenderá mais uma vez: 

"Oscar, cinquenta anos: pelo volume da obra realizada, poderia ter setenta, mas, na verdade, continua com os mesmos trinta e tantos da época da Pampulha. E pelo jeito será sempre assim. Não se trata, contudo, de nenhum pacto com o diabo. O segredo de sua juventude decorre simplesmente desse exercício cotidiano a que se entrega, e proceder à síntese e depuração de complexos problemas arquitetônicos. 

Começa como se estivesse brincando com o tema. Às vezes, o partido — isto é, a escolha da disposição geral e consequente subordinação das partes — é tomado, quase diria, de assalto, logo na primeira investida; outras vezes, o jogo prossegue e começa então a ronda implacável: é de manhã à noite — fora de hora — até que quando menos o espera, abordado de vários ângulos, o cerco se define, e o tema, acuado, como que afinal se rende, se entrega, oferecendo ao arquiteto a almejada solução. Desde momento em diante, tudo se ordena sem esforço, como decorrência da clareza do partido adotado e da intenção que lhe presidiu à escolha. 

Resulta daí uma certa euforia interior, um estado peculiar de beatitude artística. Ele convive com os amigos, brinca com os outros, assume compromissos da maior gravidade, mas já está longe — paira solto do chão, em pleno Parnaso. As horas e os dias não contam mais; não há o desgaste; pelo contrário, recebe a carga, acumula vida. 

Isto que para nós outros sucede uma vez por outra, dá-se com Oscar Niemeyer, a bem dizer, todos os dias, e assim, feitas as contas com o devido rigor, ao completar cinquenta anos, ele ainda andará por volta dos trinta." 
  
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