Como Niemeyer chegou ao entroncamento


Conto de memória, alguns detalhes podem fugir, mas o cerne da questão não.
Governo Jader Barbalho(1983-1987),  tempos de reconstrução da democracia - a eleição de Tancredo será em 1984. Fatos antes desprezados durante a ditadura, eram então valorizados, como as revoltas nativistas.
Aproximava-se a comemoração dos 150 anos da tomada de Belém pelos Cabanos e Jader Barbalho, advertido por Carlos Roque, resolve dar significado relevante à data.
Até então, em Belém, só existiam marcos comemorativos à derrota dos Cabanos. A rua 13 de maio, ganhou este nome não em comemoração a lei Áurea, mas ao dia em que as forças legalistas retomaram Belém, em 1836. Há, ainda,  um monumento em frente ao colégio Santo Antônio, dedicado ao facínora Francisco José de Sousa Soares de Andrea, o Barão de Caçapava, que bombardeou impiedosamente  Belém.



O ponto culminante das comemorações viria com a  inauguração de  um monumento que revertesse a visão sobre os Cabanos - de bandoleiros, "classes ínfimas", saqueadores, para heróis da formação da nacionalidade brasileira.
Foi constituída uma comissão designada por decreto do governador. Pelo que lembro era presidida pelo Carlos Roque; e era integrada pela ala "esquerda do governo": Benedicto Monteiro, procurador Geral do Estado; Itair Silva, Secretário de Justiça; José Akel Fares, presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil, IAB-Pa; e eu, Flávio Sidrim Nassar,  que havia sido "convidado/indicado" para representar o Departamento de Arquitetura da UFPA. Sinceramente não me lembro se tinha mais alguém. O Manuel Acácio, secretário de Obras?
A ideia era fazer um concurso; e começam as reuniões para discutir como viabilizá-lo. A única voz discordante era a minha, vinhamos de uma experiência traumática: o concurso do projeto do CENTUR. Ninguém admitia, nem ousar falar  em outra modalidade de homenagem, os tempos eram democráticos, e o concurso daria oportunidade a todos. Eu, cavaleiro solitário, insistia. Nos bastidores,  o Akel concordava comigo, só que na condição de presidente do IAB tinha que manter  uma posição corporativa.
Já estavam redigindo o regimento do concurso, e cada vez mais ficava provada a complexidade e a dificuldade deste processo que, como o do CENTUR, não garantia a qualidade do projeto.
Um dia, na hora do cafezinho,  eu acompanhado do Akel,  chamei o Roque para uma janela do palácio Lauro Sodré, onde se reunia a comissão, e falei:
Esse negócio não vai dar certo, tu queres ver uma solução que resolva tudo isso e que ninguém vai ter coragem de reclamar? Sugere ao Jáder de convidar o Niemeyer pra fazer o projeto, pelo tema duvido que ele recuse.
Roque fez cara de paisagem congelada da Sibéria e insistiu:
O Homem quer concurso, vamos fazer o concurso.
A reunião prosseguiu meio sem rumo. Uns 20 dias depois, o jornal mostrou as fotos de Jader e Roque no escritório do ON no Rio.

Não me importa como o Roque passou a ideia ao governador, só sei que a bola quicou na frente dele e .... gooollll
Isso foi o que  pareceu aos sobreviventes da comissão: eu e o Akel.
O outro, é o  Senador Jader Barbalho. Quem sabe, um dia, ele  conte mais detalhes desta história.
O fato é que Belém ganhou um privilégio, poucas cidades no mundo foram tocadas pelas graças deste deus.
A comissão só foi convocada novamente para a inauguração.
Nosso nome constou em placa de bronze.
Para desespero de muitos, coube a Jader Barbalho fazer a mais digna homenagem aos Cabanos,  já realizada no Pará, ao popularizar a palavra Cabanagem. Antes, aquele não-lugar da estropiada paisagem urbana de Belém, ninguém sabia por que, se chamava Entroncamento.
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