Morro do Quadro, em Vitória, foi o embrião das UPPs no Brasil: por que parou?



Polícia Interativa do Morro do Quadro (1997/2002)

No dia 31 de maio de 2012 a Prefeitura de Vila Velha recebeu a presença do ex-capitão do Bope (Rio), o agora oficial da reserva da PMRJ, escritor e comentarista de segurança da Rede Globo, Rodrigo Pimentel. Ele é coautor do livro “Tropa de Elite”, que virou filme, tendo sido o mais assistido da história do cinema brasileiro.

Na sua palestra, exaltou por diversas vezes a política pública adotada pelo governo do Estado do Rio de Janeiro de maior sucesso e resultado positivo da história da segurança pública carioca, que foi a implantação das Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs).

A ideia das UPPs, divulgada em todo mundo, tem como filosofia e estratégia organizacional a “Polícia Comunitária”. O trabalho anterior à ocupação comunitária da Polícia Militar do Rio foi de intensa e programada inteligência policial (leia-se investigação, identificação e prisão de traficantes e homicidas) nas comunidades de maior vulnerabilidade social e criminalidade com o policiamento de proximidade e reforço nas questões atreladas à cultura, esporte, lazer, educação, saúde, infraestrutura entre outros.

Na palestra do oficial da reserva da PMRJ, que inspirou o Capitão Nascimento do filme Tropa de Elite, iniciativas bem sucedidas capixabas foram relatadas como sendo as mesmas filosofias adotadas pelas UPPs do Rio. Dentre as experiências, destaque para o “Projeto de Polícia Interativa do Morro do Quadro”, em Vitória.

Na mesma palestra, Rodrigo Pimentel fez a perguntas que não querem calar: “Esse modelo teve continuidade? O Morro do Quadro ainda tem política pública? O governo do Estado do Espírito Santo apoiou? Tornou-se programa de Estado?”.

Os oficiais e servidores da futura Guarda Municipal de Vila Velha que assistiam à palestra ficaram calados, porque “não” foi a resposta para todas as perguntas.


Ferramentas dos parâmetros do Modelo Interativo
de Polícia. Certificação de Qualidade Interativa (1998/1999). 
Nós, cidadãos comuns, nos silenciamos ao longo dos últimos 10 anos, mesmo com o sucesso das iniciativas capixabas de comunitarização e integração da segurança pública em outras partes do País.

A descontinuidade dessas políticas permitiu que projetos e ações que aproximavam polícia e comunidade sucumbissem, modelo de parceria decisória e respeito e promoção dos direitos humanos iniciada na cidade de Guaçuí, no inicio da década de 1990.

Nessa cidade, ao Sul do Estado, a comunitarização da filosofia de policiamento recebera sua marca característica, Polícia Interativa, reconhecida com o 1º lugar no Prêmio Nacional de Polícia Comunitária no período 2001/2002, logo depois em que a metodologia foi replicada no Morro do Quadro, na capital capixaba.


O Morro do  Quadro vivia uma situação de guerra permanente. No final de janeiro de 1997, dois policiais militares foram covardemente assassinados com tiros na cabeça pela quadrilha do traficante Juninho.

Foram cercados por traficantes quando iam ao Cabral, morro vizinho, levar intimação a testemunhas para comparecer à Corregedoria Geral da Polícia Militar.

Livro editado pelo Ministério da Justiça referente
a Polícia Interativa do Morro do Quadro
Em vez de invadir o morro e caçar implacavelmente os assassinos – que acabaram sendo presos pela própria PM, cujo Inquérito Policial  Militar foi presidido pelo então capitão Jailson Miranda, que comandava a 2ª Companhia (Santo Antônio) do 1º Batalhão da PM (Vitória) –, a PM capixaba fez o inverso: instalou um Destacamento Policial Militar (DPM) no morro e se aliou aos moradores.
O DPM foi instalado pelo então subcomandante do 1º Batalhão (Vitória), o então major José Carlos Fiorido, hoje coronel da reserva.  A PM implantou também o modelo interativo na comunidade. A experiência da PM no Morro do Quadro virou até livro.

Não precisa dizer que, a partir de janeiro de 2003, com a chegada da dobradinha Paulo Hartung e Rodney Miranda na segurança pública do Espírito Santo, o modelo foi extinto. Até o DPM foi desativado e de 10 anos para cá o Morro do Quadro voltou a viver sob o domínio dos...traficantes.

Nossa segurança é marcada pela descontinuidade efetivas de políticas públicas. Nossas autoridades, em sua maioria, são incapazes de entender tal filosofia como estratégia fundamental de legitimidade das forças policiais.

Por isso, a metodologia relegou-se ao ostracismo, sendo encoberta por soluções conservadoras, fenômeno não exclusivo ao território capixaba, e tão bem diagnosticado como a “Síndrome da Rainha Vermelha”, por Marcos Rolim (2006). E especialista em segurança pública e direitos humanos, Rolim oferece no livro uma visão reveladora e desconcertante de um dos assuntos mais prementes da atualidade - a segurança pública. Utilizando dados da moderna criminologia, analisando exemplos e fazendo uma análise.

Realmente, foram inúmeras iniciativas sem continuidade em solo espírito-santense. Hoje vivenciamos no Brasil aqueles policiais e cidadãos que aqui foram capacitados em Direitos Humanos e Polícia Interativa, que replicaram o modelo capixaba, como o caso do bairro Jardim Ângela, em São Paulo, considerado o bairro mais violento do mundo, e agora é referência mundial como localidade de maior alcance de qualidade de vida. E assim tem sido o projeto das UPPs do Rio.
 
http://policiainterativa10bpm.blogspot.com.br/2013/01/morro-do-quadro-em-vitoria-foi-o.html?zx=42a3215162631663